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sábado, 31 de janeiro de 2009

Do Velho ao Novo

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

Reflectindo a Crise

Oriunda do latim, o termo crise tem a mesma equivalência da palavra vento. Indica, assim, um estágio de alternância, no qual uma vez transcorrido diferencia-se do que costumava ser. Não existe possibilidade de retorno aos antigos padrões.Reflectindo a CriseUma profunda CRISE está instalada em Portugal e no Mundo ocidentalizado. Esta crise global que afecta o Homem e a sua Natureza revelou o valor das “coisas” no planeta Bolsa, onde se brincou com a falácia da probabilidade, atribuindo valias fantasiosas a “não-coisas” controladas pelo vento da ganância. Acordamos agora para a realidade. Um despertar forçado após anos de luta desigual, negociando em valores desumanizados, entregando à “ambição financeira” as rédeas do crescimento das sociedades e da evolução da Pólis. Diz-se que os Gregos inventaram as cidades depois de se aperceberem que os humanos desenvolvem qualidades muito louváveis vivendo em comunidades pacíficas. Assim nasceram as Belas Artes, a Matemática, a Filosofia, a Política, o Teatro, a Literatura e até a Ciência. Mas a Política tomou conta de tudo e decretou-se o crescimento económico de entidades privadas como solução dos problemas da comunidade e a gestão por objectivos como seu paradigma. Evoluímos para um sistema mediacrático em que o poder é entregue a quem melhor saiba vender a sua imagem e onde a obra pública é oportunidade de negócio antes de ser benefício real para a comunidade. Um sistema em que os nossas necessidades mais básicas são aproveitadas para discutir um “bom negócio” em que a venda/compra de bens/serviços irá beneficiar “alguém” que não o Estado e seus contribuintes. A pequena corrupção já serve de desculpa para a eficiência ou falta dela. Vale tudo para atingir objectivos porque é assim que se faz nas grandes empresas multi-nacionais e os portugueses têm de ser geridos como empregados de José Sócrates e Companhia, Lda.O modelo escolhido não é original, foi o mesmo que o antigo presidente da Reserva Federal norte-americana, Alan Greenspan. Aquele que reconheceu recentemente, numa audição no Congresso, que falhou na regulação do sistema financeiro. "Cometi um erro ao confiar que o livre mercado pode regular-se a si próprio sem a supervisão da administração", desculpa-se o homem que esteve 18 anos ao comando do dollar americano. O que fazer? Mandamo-lo gozar a sua indemnização milionária para casa e proibimo-lo de jogar Monopólio com os amigos? E aos seus seguidores que ainda estragam isto tudo? Pontapé no traseiro?Seremos todos empregados de uma administração democraticamente eleita que confia mais na iniciativa privada que nas suas próprias estruturas; fomos entregues aos bichos, aos “vampiros” de Zeca Afonso que para comer tudo mentem descaradamente, incutindo a falsa ideia que o bolo ainda chega para todos. Vendedores e consumidores. As ambições dos Portugueses resumem-se a isto. Vendemo-nos como escravos ou idiólatras do Capital, consumindo como modo de vida e determinados a consumir tanto quanto o primo abastado. É o objectivo! Casalinho a trabalhar num callcenter de gestão privada, subcontratação que o Estado chama emprego, ligados à máquina que regista a sua produção e eminente despedimento. Casalinho com quatro empréstimos ao Banco, filhos e cães para sustentar, dois carros para os levar ao emprego. Chega a Crise, é o vento que a transporta sabe-se lá de onde. O casalinho perde o trabalho por causa de uma conta mal feita no Planeta Bolsa. Quem os salva? Na Bolsa os bolsos estão todos vazios.A crise dos valores bolsistas é, também e principalmente, uma crise de valores humanos. De certa forma, a sociedade de consumo exige que sejamos consumidores insaciáveis. A ambição infantil de desejar “todos os brinquedos da loja” tornou-se paradigma da actividade social e motor da supostamente messiânica economia de mercado. Tornámo-nos gestores de objectivos vagos. Objectivo: Diploma e Emprego. Objectivo: Casar e representar uma novela da normalidade. Objectivo: Comprar casa para mais tarde comprar outra maior. Objectivo: Ser promovido e mudar de carro. De objectivo em objectivo sem cuidar das faculdades maiores do ser humano: Sabedoria, Bondade, Sensibilidade e Criatividade.É sintomático que a Filosofia tenha sido atirada para a sarjeta do Ministério da Educação. Não interessa o que sabemos, mas o que conseguimos; a bondade é fraqueza e não coragem; a sensibilidade é desprezada e a criatividade sobrevive castrada de autonomia. O que provoca a crise é a revelação do erro. Como escravos na Caverna de Platão que vêem, pela primeira vez, além do que lhes foi permitido até à data. Avistam todo o Mundo de uma vez e entram em depressão nervosa. Mais tarde os escravos exploram e preocupam-se com aquilo que está no espaço mais próximo. Como fizeram os primeiros humanóides nas planícies africanas. É automático e, em tempos de crise, o instinto animal reclama o seu lugar no córtex pré-frontal. Uma das razões que me leva a escrever sobre os engenheiros vendilhões do templo e não sobre a corrupção e liberdades do povo chinês. A crise, em Portugal, é de valores porque o consumo passou a ter um valor real e os princípios morais desvalorizaram. As horas que passamos longe da família e do nosso habitat natural, trabalhando com o mitológico suor no rosto e goelas apertadas pelo nó britânico da seda Versace, cumprindo tarefas que não representam nada de verdadeiramente importante para o próprio ou sua comunidade. Vidas que não são lição para nenhum filho, nem honra a virtuoso antepassado. É apenas um objectivo atrás de outro, sem dar espaço para viver tudo o resto. O resultado desse trabalho é gasto em bens consumíveis ou voláteis; e por eles se negligencia os filhos e a tranquilidade familiar, prejudica a saúde mental e física, compromete a honestidade interior e exterior. Pouco a pouco, o Tuga se foi transformando em ovelha ordeira e produtiva, peça imprescindível para que a máquina cresça e perdure no tempo, dilatando o fosso e disparidade retributiva entre os muito pobres e os disparatadamente ricos; dado crescente em Portugal já com 20 por cento da população em estado deplorável e a maior diferença entre ordenados mínimos e máximos. O Poder achou que podia aproveitar os piores instintos humanos para fazer uma sociedade livre onde todos se poderiam tornar capitalistas. O mercado deveria regular-se sem interferência e valorizávamos apenas o sabor do vento, apostando sempre e apenas na brisa mais forte. Bolas, não é isso que se quer de um Estado. Ao vento o que é do vento, como fantasias, promessas e castelos no ar. O Estado serve para produzir e fornecer aos seus patrões (eleitores) uma vida onde se possam realizar como indivíduos inteiros e de valor. Assim como os heróis de antigamente, sempre honestos e elegantes. Acredito que existem vários valores para além dos afectados crescimento económico. Haja liberdade, igualdade, fraternidade… Saúde, Educação, Justiça; como mudar isto sem políticos com experiência prática e académica nestas áreas. Acredita-se que os melhores sábios destas disciplinas respeitam valores que os impedem de entrar na Política — “A Grande Porca”, nas palavras do mestre Bordalo. Andam por aí, pelas tascas insultando Voltaire que “para cuidar do jardim” matou D. Quixote e casou com Sancho Pança.Em Portugal, salvo rara excepção, são os bons vendedores se tornam ministros, secretários de Estado, administradores, gestores e assessores-de-porra-nenhuma, vulgo aspones. Sabem parecer confiantes quando apresentam gato por lebre e mentir com um falso esgar de preocupação na cara; são agressivos, enérgicos, autoritários e sorridentes. É o modelo do ser Humano bem sucedido, numa Era em que é necessário ter valores fictícios no bolso para dedicarmo-nos ao incomparável e gratuito sistema de valores intelectuais, emocionais e até espirituais.

André Barreiroshttp://andrebarreiros.bloguepessoal.com

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